Santos Dumont e o software livre

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Em 2006, o Brasil comemorou 100 anos da invenção do avião. O Brasil, assim como a França, não reconhece a primazia dos irmãos Wright e há para isto várias alegações: o uso de elementos externos, como catapultas ou ventos favoráveis (como se diz, “catapultadas até as pedras voam”); a ausência de testemunhas idôneas que validassem as experiências e o fracasso da demonstração pública do vôo do aparelho dos irmãos Wright colocam em dúvida o feito norte americano. Não obstante, e apesar disto, é inegável a contribuição das descobertas dos irmãos Wright para a aviação.

Independente da posição que adotemos quanto a esta polêmica, uma diferença é fundamental e aponta para questões que assumem hoje papel primordial. Enquanto os irmãos Wright trabalhavam em segredo, Santos Dumont trabalhava publicamente, trocava experiências e descobertas, colaborava.

O final do século XIX e início do século XX esteve marcado por uma efervescência de idéias e um desejo coletivo e generalizado de voar. Antes mesmo do início do novo século, o homem já voava. O engenheiro alemão Otto Lilienthal realizou entre 1890 e 1896 mais de mil vôos com planadores, o próprio Dumont realizou, em 1901 um vôo controlado ao redor da torre Eiffel com o seu dirigível nº 6.

E cada uma das experiências que eram realizadas, bem sucedidas ou não, agregavam algum tipo de descoberta ou invenção, que fazia avançar o conhecimento coletivo sobre a aviação. Neste sentido, e ainda que tenha realizado o primeiro vôo mecânico homologado em 1906, também não poderíamos afirmar que Santos Dumont inventou o avião porque o avião foi uma invenção coletiva ou, como disse o coronel francês Ferdinand Ferber, considerado com um dos precursores da aviação, “o vôo real foi conseguido passo a passo, salto a salto, vôo a vôo.”

Santos Dumont tinha plena consciência do caráter colaborativo de suas descobertas e invenções, tanto que nunca patenteou nenhuma de suas criações e, mais do que isto, fazia questão de divulgá-las, como uma conquista não sua mas de toda a humanidade. Disse ele a um jornalista que o entrevistava: “Se quer prestar-me um grande favor, declare, pelo seu jornal, que, desejoso de propagar a locomoção aérea, ponho à disposição do público as patentes de invenção do meu aeroplano. Todo mundo tem o direito de construí-lo e, para isso, pode vir pedir-me os planos.” As plantas detalhadas de construção do Demoiselle, considerado o avião mais seguro da época, foi doada às universidades e publicada em uma edição da revista Mechanics em 1910. Ele sabia que a idéias estavam, por assim dizer, no ar.

Temos então dois tipos opostos de atitude. Por um lado, os irmãos Wright que trabalhavam em sigilo e, apesar de indícios de terem se utilizado de descobertas de outros inventores, patentearam suas invenções e reivindicaram, como ainda fazem hoje muitos norte americanos, a autoria da invenção do avião. Por outro lado, Santos Dumont trabalhando em equipe e compartilhando as novas descobertas com outros inventores e com o público em geral.

Cem anos se passaram e esta questão continua extremamente atual. A grande contribuição de Santos Dumont, mais até do que a “invenção” do avião é a de ter sido o precursor da filosofia do conhecimento e da tecnologia coletivos e compartilhados para o bem comum da humanidade.

Esta é a filosofia que está por trás dos mais de 100 mil projetos colaborativos em software livre ao redor do planeta. Milhares de profissionais de TI das mais diversas línguas e culturas compartilham, trocam informações, se ajudam mutuamente na solução de problemas porque sabem que o avanço das ferramentas se dá, mais do que por esforços isolados, por um processo contínuo de construção conjunta. Só assim o conhecimento e a humanidade poderão decolar!

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Lyara Apostólico

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É servidora do Ministério da Cultura. Mestre em Ciências da Comunicação e Doutora em Artes pela Universidade de São Paulo. É pós doutora em mídia e sociedade pela Universidade Autônoma de Barcelona. Blog da Lyara


5 Comentários

Klaus Laube
1

Nossa!!! Excelente post!!!
Como seria bom se grande parte dos profissionais tivesse esta visão…

Um orgulho maior de ser brasileiro agora… srsrsr…

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