Mais um pouco de Cloud Computing

Nas duas últimas semanas participei de algumas entrevistas com a mídia abordando Cloud Computing. E este mesmo tema foi assunto dominante de algumas reuniões com executivos de empresas clientes. A conclusão óbvia é que o tema está bombando. Que tal então, resumirmos um pouco do que debatemos?

Na minha opinião, Cloud Computing vai se tornar mainstream em 3 a 5 anos, mas enquanto isso muitas pedras terão que ser retiradas do caminho. Hoje, por exemplo, ainda não vejo uma clara percepção de seus benefícios e mesmo restrições por parte de muitos executivos de TI. A percepção de valor da computação em nuvem ainda não está clara para muita gente.

O problema deste ainda “desconhecimento” é a possibilidade de empresas embarcarem em projetos de cloud que poderão ser custosos em tempo e  investimento, sem conseguirem obter os resultados desejados. Aliás, já vimos este filme antes. Quando o cliente-servidor surgiu, várias empresas afoitadamente desligaram seus mainframes, sem uma estratégia adequada para uso e gestão da computação distribuida. O resultado foi um TCO muito alto e inesperado…

O que venho abordando nas reuniões é que o valor da computação em nuvem seja claramente percebido, antes de iniciar qualquer projeto mais abrangente. Disparar um projeto de prova de conceito (proof-of-concept) é uma boa estratégia para se consolidar estas percepções. Recomendo, portanto, um projeto POC.

Venho observando também que os executivos de TI tendem, na média, a serem mais cautelosos que os executivos das áreas de negócio quanto ao uso da computação em nuvem. Sua percepção de valor muitas vezes concentra-se na redução de custos (infra e suporte) e de capex (investimentos em capital). Em muitas das conversas identifiquei que nem sempre estão buscando serem proativos na estratégia de cloud.

Por sua vez, os usuários com quem venho falando mostram-se mais animados e olham a computação em nuvem (principalmente Software-as-a-Service ou SaaS e Infrastructure-as-a-Service ou IaaS) como uma boa alternativa para conseguirem mais agilidade e flexibilidade para seus projetos de TI. Provavelmente, alguns destes executivos estão mais concentrados em obter resultados de curto prazo e nem sempre consideram adequadamente os problemas típicos de TI, como a integração entre os sistemas em nuvem e os legados, ou mesmo a possibilidade de um “platform lock-in”  devido a atual ausência de padrões de interoperabilidade entre as nuvens.

Uma dúvida sempre presente é a possibilidade da computação em nuvem permitir o processamento de aplicações de negócios, como ERP e outros sistemas. Claro que aplicações que não demandam integração, em princípio, não apresentarão maiores problemas para rodarem em nuvens. Serão as primeiras a rodarem em nuvem. Uma olhada rápida no diretório do Force.com (AppExchange) já nos mostra diversas aplicações interessantes e para mim é apenas a ponta do iceberg do que veremos nos próximos anos. Neste diretório vocês verão, inclusive, uma solução da Totvs, para gestão de frotas. Interessante vermos que o Force.com já aponta novas funcionalidades provocada pela flexibilidade gerada pela computação em nuvem, como a sinergia entre aplicações de negócios e as redes sociais. É o exemplo o “Chatter”, plataforma que pemite aos usuários do Force.com a compartilharem aplicações de negócios, como um CRM,  com redes sociais, criando SRM (Social Relationship Management)

Mas as aplicações que demandam integração com outros sistemas, principalmente sistemas legados que operam fora do modelo de cloud computing, devem ainda serem vistos com cuidado redobrado. De qualquer maneira já temos muitos casos de sucesso em CRM (exemplo do Salesforce) e algumas primeiras iniciativas de sistemas ERP (Compiere, um sistema open source, NetSuite e a brasileira Zipline). Na minha opinião a adoção de ERP no modelo de computação em nuvem será adotado, em princípio, por empresas de pequeno porte, devido a sua alta sensibilidade à custos. Cloud Computing tem a possibilidade de mudar de forma radical a maneira como as pequenas empresas adquirem e usam tecnologia. Em vez de equipes pequenas e subdimensionadas, com poucos servidores, nem sempre configurados e gerenciados da forma mais adequada, poderão ter como unico staff seu próprio gestor de TI e com toda a infra de hardware e software residindo em nuvens públicas.

Já as grandes corporações não deverão adotar de forma entusiástica o modelo de computação em nuvem para seus sistemas ERP, pelo menos nos próximos 3 anos. Depois, só bola de cristal…mas, não será fantasioso vermos os principais fornecedores de ERP oferecendo versões em nuvem ao lado do modelo tradicional, on-premise. A estratégia deles será, naturalmente, fazer uma migração lenta e gradual. Uma disrupção afeta seus modelos de negócio atuais e como os seus clientes, grandes corporações, também não são adeptas de rupturas, o acordo tácito entre as duas partes vai direcionar o ritmo de adoção da computação em nuvem para estas suites.

Algumas conclusões…Primeiro computação em nuvem não deve ser vista apenas pela ótica de redução de custos, mas os benefícios potenciais das áreas de TI permitirem mais agilidade e flexibilidade aos usuários devem ser considerados com atenção.

Outra conclusão: as áreas de TI não devem ignorar ou subestimar a  pressão que os usuários, logo que perceberem o valor da computação em nuvem farão.

Quanto aos ERP. A situação de hoje não pode ser cristalizada, como em uma foto. A evolução do mercado e a mitigação de eventuais problemas que impedem uma empresa de migrar para um ERP corporativo em nuvem vai acontecendo a cada dia. Sugestão: olhar o cenário dos sistemas ERP em nuvem não como uma foto mas como um webcast.

E finalmente: computação em nuvem não deve ser um projeto específico de TI nem exclusivo dos usuários, de forma independente. É uma mudança no modelo computacional da empresa e, portanto, um projeto corporativo. E, importantíssimo, não pode haver desconexão entre TI e seus usuários.

Fonte: Blog Nas Nuvens

Cezar Taurion

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Gerente de Novas Tecnologias Aplicadas/Technical Evangelist da IBM Brasil, é um profissional e estudioso de Tecnologia da Informação desde fins da década de 70. Com educação formal diversificada, em Economia, Ciência da Computação e Marketing de Serviços, e experiência profissional moldada pela passagem em empresas de porte mundial, Taurion tem participado ativamente de casos reais das mais diversas características e complexidades tanto no Brasil como no exterior, sempre buscando compreender e avaliar os impactos das inovações tecnológicas nas organizações e em seus processos de negócio. Escreve constantemente sobre tecnologia da informação em publicações especializadas como Computerwold Brasil, Mundo Java e Linux Magazine, além de apresentar palestras em eventos e conferências de renome. É autor de cinco livros que abordam assuntos como Open Source/Software Livre, Grid Computing, Software Embarcado e Cloud Computing, editados pela Brasport. Mantém o blog http://computingonclouds.wordpress.com/ sobre computação em nuvem.


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