O outro lado da história

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Continuação da entrevista com o professor Levi, da Fatec Sorocaba. A partir daqui, as opiniões sobre o mercado dão lugar a considerações pessoais sobre a relação professor-aluno.

Obs.: Se você não leu a primeira parte dessa entrevista, pode fazê-lo clicando aqui.

Imagem via Shutterstock

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A: Queria falar um pouco agora sobre uma questão referente à maratona de programação. Tenho amigos que estudam ou lecionam em faculdades particulares em Sorocaba e, segundo informação que me passaram, em uma edição da Maratona os alunos de uma delas, instituição tida por muito tempo como referência na área, teriam ficado em colocações inferiores a alunos das faculdades públicas, causando certa surpresa em alguns alunos e professores.

L: A maratona é um evento não apenas local, mas nacional e mesmo mundial. Equipes vencedoras vão sendo direcionadas para disputas com outras até chegarmos no último confronto, em algum país estrangeiro. A ideia da maratona é algo que vem sendo praticado, há muito tempo, por duas grandes instituições: o ITA e a Unicamp. Entre eles, você percebe uma grande rivalidade, mas o ITA costuma ser superior. A razão para isso, ao meu ver, é o nível de exigência do vestibular (talvez o mais alto do país para essa área). Ao selecionar com tamanho rigor os alunos antes mesmo de ingressarem na faculdade, quando uma competição como a maratona se apresenta, as chances se tornam maiores mesmo.

A: E você acredita que algo semelhante ocorre em Sorocaba?

L: Sim. A relação candidato/vaga é muito maior nas faculdades públicas que nas particulares. Com isso, o funil é, naturalmente, mais severo e talvez os alunos já iniciem o curso com um nível geral médio mais alto. Isso não determina, é claro, que os alunos de uma faculdade, após formados, serão obrigatoriamente melhores que os da outra, pois tudo depende do ensino ao longo do curso e da dedicação do aluno, mas, sim, pode haver uma grande diferença nos primeiros semestres.

A: Por falar nisso, como você vê os cursos superiores no Brasil de uma forma geral?

L: Sem dúvida, mudou muito de uns tempos para cá. Hoje existem muito mais recursos tecnológicos – audiovisuais, comunicacionais – mas, de certa forma, está havendo uma banalização do curso superior no Brasil. Instituições surgem a todo instante com propostas de ensino de qualidade muito questionável.

A: Sem querer forçosamente defender a FATEC pelo fato de você lecionar aqui, mas poderia dizer o que essa instituição apresenta para não ser agrupada entre os cursos responsáveis pela banalização mencionada?

L: Bem, primeiro, a estabilidade do corpo docente. Há professores aqui com vinte anos de casa. E vários. A experiência profissional deles, tanto acadêmica quanto de mercado, é muito vasta, e suas formações, com mestrados e doutorados, só acrescentam ao conjunto. Além disso, estruturalmente, temos laboratórios de ponta e, é claro, a idade. A FATEC de Sorocaba é mais velha até que a de São Paulo, e esse tempo – mais de 40 anos – nos permitiu evoluir em vários pontos. A FATEC de Itu, por exemplo, bem mais nova, certamente passará por situações que nós já vivemos e contornamos há algum tempo, embora se beneficie, por outro lado, de todo esse progresso e da bagagem oferecida pelas demais FATECS. Tudo isso ajuda a oferecer um ensino com elevado nível de qualidade.

A: Aproveito esse gancho do ensino com qualidade para encerrarmos, tanto por respeito ao seu tempo quanto por termos deixado para o final uma questão muito importante, que é a opinião pessoal dos alunos sobre o professor Levi.

[o silêncio do interlocutor nesse momento me sugeriu que eu deveria continuar, mesmo sem saber direito como faria isso, e mesmo tendo vontade de sair correndo]

A: Já não é de hoje que ouço diversos alunos reclamando de um nível de exigência demasiado alto especificamente em sua matéria. Alguns se referem a você – com o perdão da franqueza – como “o carrasco”. Vejo alunos de outras cidades não voltando para as suas casas em finais de semana que antecedem provas suas para poderem estudar. Vejo alunos desesperados quando precisam entregar um trabalho seu. Pergunto: é isso mesmo?

[momento cheio de medo de que coisas começassem a voar na minha direção – mas, é claro, a polidez e a elegância do senhor Levi não permitiriam isso, como você poderá acompanhar na sequência]

L: Álvaro, certa vez, quando eu estive à frente da contratação de profissionais para montar uma equipe, chegaram a mim dois currículos, um demonstrando grande experiência profissional, embora com o segundo grau incompleto, e outro, com quase nenhuma experiência, mas com superior completo. Pensei em optar pelo profissional com experiência, mas fui aconselhado a escolher o graduado.

A: E por quê?

L: Porque, segundo meu coordenador à época, a experiência de uma faculdade transformava a pessoa. Não era apenas a capacitação técnica, mas a visão de mundo dela que se ampliava, se alterava. Isso me marcou muito.

A: Sob essa ótica, então, o candidato com muita experiência profissional mas sem bagagem acadêmica poderia apresentar um desempenho aquém do desejado por falta, talvez, de inventividade, de ter sido provocado por professores universitários a pensar o novo, por exemplo?

L: Exatamente. A faculdade tem a missão de formar mas também de transformar o aluno, de transformar sua maneira de pensar.

A: Mas por que a tal percepção do “terror”?

L: Sabe, Álvaro, eu faço artes marciais (Kung-Fu) e lá aprendemos muito sobre disciplina. De fato, não há outra forma de trilharmos um bom caminho – certamente em qualquer área, não sendo a educação uma exceção. Veja todos os países que tiraram o pé da lama. O que fizeram? Investiram pesadamente em educação. E como o fizeram? Com dedicação e disciplina, muita disciplina. Veja a Coreia, a Finlândia, observe como o mundo todo compra coisas que esses países produzem. Agora veja os alunos. Há aqueles interessados, participativos, e esses eu acho que dificilmente têm dificuldades. Mas há aquele aluno que já começa a assistir a aula encostado, com os braços cruzados, totalmente alheio a tudo. Depois de 15 minutos, esse cara está com a cabeça deitada sobre a mesa, dormindo.

[nesse momento, lembrei-me de nosso artigo Mea Culpa]

A: Compreendo. Não dá para admitir esse tipo de comportamento na sala de aula.

L: O problema não é só na sala de aula. Diga-me, como será a vida desse aluno se ele achar de fazer isso na empresa que o contratou? Quanto tempo será que ele vai durar? O errado sou eu por cobrar severamente?

A: Certamente que não. O objetivo do aluno quando entra na faculdade é aprender.

L: E o meu é ensinar. Eu não sou pago para dar aulas, sou pago para ensinar. Seria muito mais cômodo entrar lá, falar um monte de coisas e garantir o meu, pouco me importando com o futuro dos alunos, mas eu não penso assim. Ensinar é um compromisso que eu tenho com os alunos que entram nessa instituição – e com o dinheiro público que a mantém.

[após essa grande declaração-desabafo-tapa-na-cara – com a qual, inclusive, eu concordo integralmente – a entrevista se encerra, deixando-nos apenas a implícita sugestão para pensarmos melhor no assunto.

Ou seja, pense nisso.]

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