A multitarefa não existe

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O homem criou a máquina exatamente para ela fazer as coisas que ele não conseguia. Posteriormente – e paradoxalmente – ele tenta imitar a máquina. E, é claro, não consegue.

A multitarefa, de fato, inexiste, sendo “simultaneidade” uma palavra imprecisa para descrever outro processo: divisão da atenção e alternância.

Atente para a definição do dicionário para multitarefa: relativo à capacidade que têm alguns sistemas operacionais de simular o processamento simultâneo de mais de uma tarefa, graças à divisão do tempo do processador entre elas.

Imagem via Shutterstock

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Percebeu o “simular”?

E ainda que tenhamos conseguido passar da simulação à verdadeira simultaneidade ao enfiarmos oito núcleos em um mesmo processador, lembre-se que a sua máquina humana – seu processador biológico Intel Core iCérebro – possui somente um núcleo. Então, é bom entendê-lo e cuidar bem dele.

Vivemos em um mundo onde a tecnologia proporciona diversos novos meios de fazermos antigas coisas. Em adição, a facilidade de acesso a essa tecnologia (hoje, no Brasil, existem mais linhas de celular do que brasileiros) contribui ainda mais para vivenciarmos essas novas experiências.

Por exemplo, muitas pessoas não conseguem simplesmente se sentar para tomar o café da manhã sem “aproveitar” o tempo para ler o jornal no tablet (pagando de moderninho conectado), ver os e-mails no celular, além, é claro, de assistir ao importante noticiário da manhã (que mostrará, todo santo dia, a mesma edificante matéria sobre o engarrafamento nas marginais). É como se comer – uma das mais vitais e elementares atividades da existência humana – fosse algo por demais indigno para ocorrer isoladamente.

Tudo isso se dá em nome de uma melhor utilização do tempo. É necessário estar conectado, saber o que acontece no mundo. Mas, como não se dispõe de tempo, é necessário ler de forma apressada o The New York Times enquanto se escova os dentes – mesmo que de nada adiante, visto que, na sequência, não existirá igualmente tempo para conversar com as pessoas sobre o que foi aprendido nesta odontológica leitura.

Obs.: Não duvido que, em breve, adaptarão os dispositivos para funcionar perfeitamente imersos em grande quantidade de vapor, para que as pessoas não precisem abandoná-los nem enquanto tomam banho.

Existe, porém, um grande problema com essa vida multitarefa: embora as pessoas acreditem que estão aproveitando melhor o seu tempo, elas não estão. Eis a razão.

Essas tarefas intensamente alternadas consomem, na verdade, mais tempo, pois demandam um pequeno período de “readaptação”. Usando uma sofrível metáfora de TI, o cérebro precisa carregar na memória (RAM) um mínimo de informações para dar sequência à tarefa recuperada e, ao fazer isso, primeiro ele precisa se livrar de tudo o que estava na memória relativo à tarefa anterior. Óbvio que isso toma tempo, embora possa não parecer, e quanto maior a alternância, mais vezes temos esse processo de esvazia-e-enche. E mais tempo é gasto.

É importante considerar não apenas a má utilização do tempo, mas também, o desgaste da estrutura – a saber, a sua saúde. Ao fim de um dia como esse, com inúmeras alternâncias entre microtarefas, você estará destruído. E se a prática de tomar café o dia inteiro conseguir disfarçar sua deplorável condição por algum tempo, acredite, ao fim de uma década ou duas, nem café nem cirurgia plástica esconderão os efeitos dessa sobrecarga, pois ela afeta tanto o corpo quanto a mente – e não temos ainda cirurgia eficaz para quem ficou lelé da cuca.

Sim, existem simultaneidades absolutamente toleráveis, como quem dirige ouvindo música, pois as habilidades exigidas são diferentes e não concorrem entre si. Ainda assim, algumas situações necessitam atenção. Veja o meu caso, por exemplo: sendo escritor e também músico, não consigo me lançar a escrever ouvindo qualquer tipo de música. Ela precisa ser meio comum, meio monótona, até mesmo ruim – porque, se for muito boa, fico inclinado a prestar atenção nas estruturas da música, prejudicando minha atenção à estrutura do texto. E aí, o rendimento da escrita cai vertiginosamente.

– Existe um nome para isso, Álvaro. Chama-se incompetência.

Bonita a sua nova ferradura, a propósito. E pode até ser que você tenha razão, mas não se trata de uma exclusividade deste que lhe fala. Vejamos.

Uma matéria na revista ISTO É #2125 (ago/2010) apresenta esta chamada: “Pesquisas indicam que a sobrecarga de informações pode reduzir a capacidade de pensar em profundidade.” O estudo, da Universidade da Califórnia, conclui que a quantidade de informações disponíveis hoje em dia excede nossa capacidade de assimilação e, por isso, não conseguimos traduzir essas novas informações em conhecimento. Ou seja, totalmente inútil. Useless, como eles diriam lá.

Gostaria de chamar atenção para esse ponto: “redução da capacidade de pensar em profundidade”. Boa parte do conteúdo do Amplitudo oferece ideias para o profissional se destacar na carreira e – através de um processo secreto – obter mais liberdade no seu trabalho.

Adiantando um pouco desse conteúdo a ser disponibilizado em breve um dia: um dos momentos de maior oportunidade de destaque é quando a empresa possui algum problema e você consegue resolvê-lo. Só que, se o problema for complexo, a solução costuma também ser e se você não é capaz de pensar em profundidade, dificilmente conseguirá ser o portador da boa nova.

Mais um pouco de argumentos e encerramos.

Recentemente, seguindo a tendência do momento e aproveitando o tempinho do almoço para também fazer yoga, redigir um relatório e treinar acrobacias para uma apresentação no globo da morte, li nesta página da Colorado State University uma matéria mostrando alguns dos resultados da prática da multitarefa em estudantes. A coisa lá está em inglês e eu tomo a liberdade de exercer uma livre tradução desses dois interessantes pontos:

  • Estudantes que assistiam a aula enquanto se distraíam com outros assuntos em seus notebooks atingiam desempenho significativamente mais baixo em lições de casa, projetos, questionários e exames finais.
  • Em dois grupos de alunos, um podia usar o celular para trocar mensagens durante a leitura de um texto enquanto o outro, não. O grupo permitido levou entre 22% e 59% mais tempo para finalizar a leitura do texto, e essa medição foi feita após ser descontado o tempo gasto com as mensagens no celular. [falamos antes sobre o pequeno período de “readaptação”, mas você há de concordar: 59% mais tempo para realizar uma mesma tarefa há muito deixou de ser um “pequeno período de tempo”]

Transportando da área acadêmica para o mercado de trabalho, temos a mesma situação: menos (simultaneidade) é mais (resultado). Vale a pena, portanto, analisar se a melhor forma de projetar sua carreira é concentrar-se de verdade no que você está fazendo ou parar a cada dois minutos para espalhar twitters quem dizem o que você comeu no almoço e se estava ou não uma delícia.

Pense nisso.

Veja só como tem mais gente falando a mesma coisa: A multitarefa está matando o seu cérebro (em inglês).

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7 Comentários

Alexandre Ferreira da Costa
1

Boa noite. Permita-me discordar a vossa opinião, mas li a pouco tempo um estudo que defendia que duas coisas ao mesmo tempo era possível, e que uma terceira já não era. Parece que o córtex pré-frontal consegue dividir as tarefas entre seu lado esquerdo e direito de forma independente (semelhante aos processadores de múltiplos núcleos que você mencionou). Obviamente que existe muito a se descobrir sobre o cérebro humano, e ser definitivo pode parecer arrogância.

http://news.sciencemag.org/2010/04/multitasking-splits-brain

Maurício Lara
3

Álvaro, bom dia!

Gostei muito de seu texto. Esse tema é uma realidade; as pessoas tentando executar várias coisas ao mesmo tempo e , no final, vão deixando diversos resultados incompletos. É como se quiséssemos fazer vários carros ao mesmo tempo e, ao final, terminarmos com um carro sem porta, o outro sem pneus, o outro sem o para-brisas, e assim por diante.
O grande desafio, e aí me coloco no grupo, é saber definir as nossas prioridades, para podermos executar com competência nossas atividades.
Parabéns pelo texto. Espero poder ler mais coisas suas…

Willian
4

Texto muito interessante. De fato, o que mais podemos inferir é que fazer muitas coisas ao mesmo tempo é desgastante e improdutivo, no final das contas. Arriscaria dizer também que essa avalanche de multitarefas nos faz menos receptivos do que já somos a textos e a análises profundos. Ler, quando se torna um exercício “fast food” – lemos vários textinhos em sites, ouvimos 20 notas de notícias no rádio, mas não conseguimos sentar em uma poltrona e ler um livro de literatura de boa qualidade por meia hora sequer -, nos torna menos aptos a refletir e, por consequência, mais suscetíveis a engolir o senso comum, o pensamento raso e tudo mais. É claro que temos que levar em conta, também, fatores que extrapolam este texto e dão pano pra manga: baixa qualidade educacional, elevados níveis de desigualdade social (o que impede, demais, o acesso a cultura e até ao tempo livre para isso, já que os mais pobres têm de trabalhar muito mais e mais tempo do que os mais ricos) e etc. Bem, acho que viajei um pouco, mas muito legal essa reflexão, Alvaro.

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