Tecnologia e Civilização – Parte I

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Há muito o ser humano se faz as clássicas perguntas: “De onde vim?”, “Para onde vou?”. Analisemos um pouco essas questões sob a ótica da tecnologia.

É normal: conforme se aproxima o fim do ano, refletimos mais. Deveríamos ter refletido bastante o ano inteiro, mas, eu sei, não deu tempo. Vejamos se nos sobra um pouquinho dele, então, agora, para essa tecnológico-filosófica reflexão de fim de ano em dois atos, examinando, neste primeiro, o “de onde vim?”, e reservando ao segundo a ainda mais profunda reflexão “para onde vou?”.

Imagem via Shutterstock

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ATO I – De onde viemos?

Ah, essa é fácil: viemos das cavernas. Cavernas sem eletricidade, sem wi-fi e… céus, como é que passávamos o tempo?

Desde esta remota época, a humanidade vem (ainda bem) evoluindo. Isto é fato. A evolução se dá pois nosso dia a dia consiste em criar coisas novas a partir das coisas anteriormente criadas, o que nos permite alçar voos cada vez mais altos a cada nova geração. É o famoso conceito – atribuído, entre outros, a Newton – de “apoiar-se nos ombros de gigantes”.

Nessa linha de pensamento aplicável a todas as áreas do conhecimento humano, talvez encontremos o melhor expoente na tecnologia. E existe uma razão simples para a tecnologia ser algo tão fantástico, uma razão-base que vai além de um design elegante ou de excelentes serviços gratuitos na nuvem: a produtividade.

Em seu livro A Riqueza das Nações, Adam Smith desenvolve, em trocentas páginas, um conceito fundamental: a riqueza das nações é determinada pela sua produtividade. E, para que sigamos juntos, vamos desdobrar “riqueza” e “produtividade”.

Por riqueza, devemos entender um conjunto de vantagens, não apenas dinheiro. É fato que, no mundo capitalista em que vivemos, as vantagens costumam ser todas precificáveis. Se até os glúteos de certas artistas (sem dúvida, uma vantagem) são protegidos por seguradoras sob prêmios milionários, sim, estamos falando da possibilidade de converter praticamente qualquer coisa – mesmo glúteos – em valores financeiros.

Da mesma forma, o sistema de educação de um país pode ser uma grande vantagem. O que a Coreia do Sul fez em duas gerações nos mostra como o investimento e o rigor junto à educação podem se transmutar em dividendos. Samsung e Hyundai estão aí para nos provar isso.

Por último, não nos esqueçamos de que o tempo também é uma vantagem, e das grandes. E esse é o pulo do gato da produtividade.

Por produtividade devemos entender a relação entre a produção e os recursos necessários para se obter essa produção. Recursos são, sim, tudo quanto tiver sido empregado em um processo produtivo mas, para efeitos didáticos, vamos nos ater apenas ao tempo. É aquele desgastado – embora utilíssimo – conceito corporativo do “fazer mais com menos”, nesse caso, interpretado especificamente como “fazer mais em menos tempo”.

Você já deve ter ouvido falar da Revolução Industrial, que se iniciou na Inglaterra, na virada do século XVIII para o XIX, rapidamente se espalhando por toda a Europa e, daí, para o mundo.

Esta revolução foi, acima de tudo, uma revolução do tempo. Quando os ingleses resolveram colocar muitas máquinas para fazer o trabalho antes realizado por muitas pessoas, perceberam algo elementar: o serviço rendia mais porque máquinas produzem mais rápido que seres humanos.

Mas não rendia somente um pouco mais. Era muito mais. Dessa forma, eles conseguiam reduzir seus custos de produção, tornando seus produtos muito competitivos. A lã inglesa foi um bom exemplo e, de tão vertiginosa que era a produção, não sobrava uma ovelha “de roupa” naquele inverno britânico desgraçado. Pobres ovelhinhas. “Baaaastards!” – they should say.

De lá para cá, a essência continua a mesma (ganhos de tempo alavancam a produção e adicionam a tal vantagem), mas a percepção não é mais a de uma revolução. De repente, ficou comum demais. Os ganhos de tempo que a tecnologia nos oferece hoje são tão diversos, e tão frequentes, que praticamente não conseguimos percebê-los.

Obs.: eu, por exemplo, ao longo da produção deste artigo, já errei a digitação inúmeras vezes sem que você conseguisse perceber, isso por causa da abençoada tecla backspace que, sobre o corretivo líquido da era das máquinas de escrever, apresenta uma enorme superioridade.

Em alguns casos, a dificuldade em perceber as vantagens reside no fato de que os ganhos são muito pequenos quando tomados pontualmente, e só mostram sua representatividade quando analisados em escala.

Vamos de caso real?

– Depois da piadinha das ovelhas, Álvaro, você pode fazer o que achar melhor…

Então vamos lá. Recentemente, aplicando um treinamento de Uso do Tempo em uma empresa, fiz um exercício e pedi a uma pessoa que, a partir do momento em que eu dissesse “já”, ela informasse o resultado de uma conta de multiplicação (eu forneceria os valores). A conta deveria ser operada na calculadora do computador (à frente da pessoa) e eu cronometraria o tempo até ela “cantar” o resultado.

Precisamos, é claro, dar um desconto para o nervosismo: a pessoa estava sendo testada – e diante dos colegas de trabalho. Ainda assim, foram inesquecíveis 29 segundos. Logo em seguida, fiz a mesma operação em… 6 segundos.

– Um pouco exibicionista, não?

Claro que não. Era um treinamento sobre uso do tempo e eu tinha um argumento a sustentar, além de conhecer atalhos. Acredite, não é do meu feitio me exibir – exceto diante de oportunidades de onomatopeia internacional nos artigos.

Foi a tecnologia que nos trouxe das cavernas até aqui – e os atalhos que possibilitaram meu desempenho superior no cálculo do exemplo acima são produto da evolução constante trazida por essa tecnologia (no Windows tem o que no DOS não tinha, e por aí vai). São segundos de vantag…

– Mas que noia, hein, Álvaro?

Compreendo sua indignação. No caso relatado, sim, estamos falando de pouco mais de 20 segundos e isso pode parecer pouco. Se compararmos com o tempo que você já gastou lendo esse texto, por exemplo, é pouco mesmo. Comparado ao tempo que algumas pessoas passam no Facebook, então, vixe, não é nada.

Mas procure pensar de forma relativa. Estamos falando de quase cinco vezes mais tempo para realizar uma mesma tarefa. Se uma empresa precisasse contratar pessoas para fazer apenas essa operação, cada contratado que fizesse do segundo jeito produziria o mesmo que cinco contratados que fizessem do primeiro. Isso só reforça o que já devemos ter percebido: sobra tempo para quem produz de forma mais eficiente.

Foi isso que a Inglaterra fez no final do séc. XVIII e é isso que a tecnologia faz todos os dias com a gente hoje: ela nos permite ganhar tempo para fazermos o que quisermos com ele.

E o que fazemos com o nosso tempo talvez seja um bom indicador de para onde estamos indo, tema do segundo ato dessa filosófica reflexão de fim de ano.

Até lá, pense nisso.

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