Educação em TI: Será possível chegar a uma “receita de sucesso”?

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Este ano completo 4 anos lecionando disciplinas de Tecnologia da Informação e o saldo deste período é muito positivo. Ensinei tanto quanto aprendi. Será que é possível chegar a uma “receita de sucesso”?

Por onde começar?

Aprender informática, atualmente, é algo tão natural quanto aprender a ler e escrever. As crianças têm contato com dispositivos eletrônicos desde muito novas e lidam com a tecnologia sem muitos mistérios. Então fica por conta do professor guiar esta aprendizagem no começo para que a criança tenha as noções de segurança e que sua experiência seja sempre positiva, agregando valores para o seu dia-a-dia.

Desde o começo, procuro trabalhar os cuidados com navegação na internet e exemplos de experiências reais que possam ilustrar caminhos que as crianças não devem seguir. Explicar suas consequências e perigos em utilizar a tecnologia sem os devidos cuidados no intuito de criar a noção de que o mundo virtual é tão real quanto o mundo aqui fora, faz parte do processo de educação tecnológica.

Em seguida, mostrar as maravilhas que podem ser conquistadas quando elas utilizam a tecnologia de maneira saudável. O quanto isso torna a vida mais produtiva e, principalmente, o fácil acesso às informações, afinal, atualmente, informação é poder.

Alguns pais tentam cercar e impedir seus filhos de estar em contato com esse mundo virtual, enquanto outros não tomam nenhum cuidado e deixam seus filhos soltos na internet. Nenhum dos dois caminhos pode ser bom para a criança. O ideal é fazer com que a criança aprenda o que é certo e errado neste universo tecnológico e tenham regras para usufruir dele a seu favor.

Ensino Fundamental I

Esta fase (1º ao 5º ano) trata os primeiros contatos com o mundo digital. A criança começa a lidar com o computador através de jogos que permitem a criança a explorar o computador, auxiliando na alfabetização, melhora na agilidade de raciocínio e reflexos. Estimula a criatividade com mais facilidade, uma vez que estes jogos proporcionam uma imersão maior da criança em um mundo paralelo onde ela já está acostumada. É a fase dos amiguinhos imaginários, das bonecas que falam, dos carrinhos que voam e daquela imaginação capaz de dar vida a tudo ao redor da criança.

Ensino Fundamental II

Esta fase (6º ao 9º ano) trata da conduta da criança no mundo digital e suas responsabilidades, conforme eu abordei no começo deste artigo.

6º e 7º – Fase de Transição

Uma atenção especial para o 6º e 7º anos porque considero uma fase de transição onde a criança ainda necessita trabalhar de maneira lúdica, com personagens e histórias. Porém, iniciamos um trabalho de conscientização da criança a respeito do mundo tecnológico e as possíveis aplicações no mundo real. Usamos a matemática para começar a criar algoritmos e aplicar fórmulas em suas histórias e personagens. Estes dois anos eu gosto de utilizar linguagens blocadas de programação porque são perfeitas para fazer esta transição, inserindo conceitos de lógica, orientação espacial por coordenadas e noções sobre variáveis e armazenamento de informações.

CodeOrg

O Projeto Code.org tem ajudado muito com este trabalho, envolvendo crianças do mundo todo. Quando conheci este projeto, nos EUA, ele ainda estava em um estágio embrionário e não havia previsão de ser divulgado no Brasil. Então me ofereci para fazer as traduções para Português / Brasil e a empresa nos incluiu no roteiro de implantação. O lançamento mundial ocorreu simultaneamente em vários países, inclusive no Brasil.

Ainda nestas duas etapas, considero absolutamente importante fazer um trabalho de conscientização do uso da tecnologia. Por ser algo novo para a criança, é necessário orientar o uso do smartphone, tablet, computador e internet. Afinal, a criança está na fase de compreender conceitos. Socializar com outras crianças, lidar com atividades em grupo, brincar e estudar fazem parte da vida e não podem ser substituídas por uma vida digital.

Conscientizar a criança sobre os benefícios e perigos de uma vida digital faz parte da educação tecnológica. Como esta criança deve se comportar em um meio social onde pessoas podem ser o que desejarem (a criança pode conversar com alguém que esteja usando a imagem de uma personagem atrativa). Os pais devem fazer parte deste meio e estar sempre atentos a novos amigos e comportamentos que não sejam condizentes com a idade de crianças da mesma faixa etária dos seus filhos. Saber a importância de controlar a exposição nas redes sociais (nem tudo precisa ser compartilhado), assim como manter acesso restrito a informações pessoais como endereço, telefone, compartilhamento dos locais onde está, entre outras informações que não devem ser de conhecimento público.

Prevenir a respeito dos golpes mais aplicados através da internet. É uma idade onde a criança se “encanta” facilmente e isto pode ser uma porta de entrada para oportunistas. Alguns pais questionaram a respeito da necessidade de falar sobre estes golpes tão cedo para as crianças. Lembre-se de que a realidade das crianças de hoje é completamente diferente da nossa realidade quando éramos crianças. Os golpes também ganham outras proporções e alvos. O golpe da Noiva Russa, por exemplo, pode ser aplicado durante anos para que a ilusão e a expectativa sejam tão grandes que deixem a criança sem condições de questionar algo. Quem aplica estes golpes faz em diversas pessoas ao mesmo tempo, pois a internet possibilita isto.

Utilização de ferramentas como editores de texto, planilhas de cálculo e editores de apresentações. São ferramentas necessárias para qualquer pessoa nos dias atuais e que precisam ser aprendidas e compreendidas o mais cedo possível. Lidar com estas ferramentas permite que a criança comece a criar trabalhos cada vez melhores para as próximas etapas, inclusive a apresentação para o público, aprendendo a articular melhor diante de outras pessoas.

Por fim, e não menos importante, a introdução aos conceitos de lógica aplicada. Conhecer operadores condicionais que já são apresentados na matemática, além de estruturas lógicas de desvios e repetições. Toda a base para que a criança comece a exercitar seu raciocínio lógico.

7º e 8º – Fase de Preparação

Nestas etapas os conceitos de lógica vistos anteriormente agora serão direcionados para uma linguagem de programação. Este é o momento onde a criança compreende (e percebe) sua afinidade com as diversas carreiras em TI.

Não apenas programação em uma linguagem, mas também conhece fundamentos de infraestrutura, design gráfico (UX – User eXperience), armazenamento de informações (banco de dados) e organização (gestão de projetos).

Tudo isto dentro de conceitos (e prática) disponíveis para o entendimento da criança e que será a preparação para os próximos anos no Ensino Médio.

Quando comecei a lecionar para os pequenos, tive muito cuidado com o que estaria levando para eles. Eu pensava que falar sobre lógica, algoritmos e ferramentas de programação fosse algo além da compreensão deles. No entanto, para minha surpresa, tudo o que foi apresentado teve uma boa recepção e assimilação desde que respeitado o tempo de aprendizado deles e que seja com uma linguagem adequada. Este “encantamento” pelo que é novo, faz com que as crianças aprendam com maior facilidade e tornem toda esta nova experiência parte do seu cotidiano. Se não seguirem uma carreira de TI, certamente serão extremamente habilidosos com informática em qualquer carreira que escolham seguir, além de terem o conhecimento necessário para manter uma postura adequada e segura no mundo digital.

Ensino Médio Técnico

Com todo o trabalho realizado no Ensino Fundamental, receber estes alunos no Ensino Médio Técnico ficou mais simples para se trabalhar. Conceitos importantes já foram aprendidos. Agora é o momento de aprofundar os conhecimentos em cada um dos segmentos de TI. Eu prefiro separar em dois cursos completamente diferentes. Técnico em Desenvolvimento de Sistemas, para aqueles que vão lidar com programação, banco de dados, design e análise. Técnico em Infraestrutura, para aqueles que demonstraram maior afinidade com hardware, segurança e disponibilidade da informação.

O objetivo desta etapa é tornar o aluno um profissional. Preparar para o mercado de trabalho e prover a experiência necessária para que seja integrado rapidamente após a conclusão do curso.

Não seria este o papel da graduação?

Até alguns anos atrás eu diria que sim. No entanto, os cursos profissionalizantes mostram que é possível (e mais eficiente) formar um profissional no Ensino Médio. Permitir que o adolescente inicie sua carreira mais cedo e que a graduação seja uma especialização da área escolhida. Os cursos de pós-graduação passam a ser novas especializações na mesma área ou em áreas que tangenciam sua formação inicial.

Por exemplo, um jovem tecnólogo formado em Desenvolvimento de Sistemas no ensino médio. Ele tem a expertize para trabalhar imediatamente no desenvolvimento de sistemas e fazer uma graduação em uma área mais específica da sua formação técnica como, por exemplo, Engenharia Mecatrônica para integrar seus conhecimentos em programação com um hardware. Em seguida, fazer uma pós-graduação em Computação Forense e se especializar em segurança. Observe que a carreira deste profissional teve início em desenvolvimento de sistemas e continuou utilizando as ferramentas de programação para sua especialização com robótica e depois aperfeiçoou seus conhecimentos na área de segurança.

Considerando que ele iniciou o Ensino Médio aos 15 anos, formou-se tecnólogo aos 18 anos. Cursou a graduação, em média 4 anos, formando-se com 22 anos. Fez a pós-graduação em aproximadamente 1,5 ano. Temos um profissional de altíssimo nível com 24 anos de idade. O que acham disso?

Obviamente o estudo não para. As atualizações são constantes e novas especializações devem ser feitas, inclusive o doutorado, para aqueles que desejam ingressar no meio acadêmico ou palestrar sobre os assuntos onde domina amplamente.

Graduação

Se o Ensino Médio Técnico está fazendo o papel da Graduação, então o que vai acontecer agora?

Certamente haverá uma reestruturação nos cursos de graduação, uma vez que este aluno já é um profissional. A graduação deverá tratar com maior profundidade os assuntos pertinentes a cada área e os professores terão maior facilidade para transmitir o conhecimento. O resultado da graduação será, sem dúvida, melhor do que conhecemos hoje. Este foi o ponto que me trouxe até aqui. Já escrevi alguns artigos anteriormente, tratando duramente alguns comentários que cansei de ler. Se você tiver 5 minutos, recomendo ler “Graduação Generalista é Desculpa de Incompetente”.

Abraço e até o próximo artigo!

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Andrey G Santos

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Executivo com mais de 20 anos de experiência em tecnologia e negócios, considerando desenvolvimento de sistemas, arquitetura, infraestrutura tecnológica, operações e suporte, com carreira desenvolvida em empresas dos segmentos: Atacado, Varejo, Logística, Seguros e Telecomunicações.


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