COVID-19 e a encruzilhada tecnológica do Brasil

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Que a pandemia de COVID-19 causada pelo novo coronavírus está mudando radicalmente as relações interpressoais e de trabalho como as conhecemos, não há dúvidas.

Em poucos meses, mudamos a forma com o a qual trabalhamos, estudamos e nos comunicamos: recursos tecnológicos já conhecidos por vários profissionais de TI, como videoconferência, e-learning e trabalho remoto ou home office tornaram-se protagonistas de uma nova realidade. Como sempre, empresas, escolas, instituições, governos e pessoas tiveram que se adaptar na velocidade frenética característica do mundo da internet.

O mundo antes da COVID-19 não existe mais. E o fato é que o Brasil deverá decidir se deseja abraçar de vez a nova realidade digital ou se quer ficar preso ao passado e afundar junto a ele.

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Tecnologia? Isso não te pertence mais!

De meados dos anos 80 até quase metade dos anos 2000, computador era um artigo de luxo para a maioria da população. Nesse tempo, qualquer desktop de marca, por mais simples e básica que fosse sua configuração, tinha um preço em geral proibitivo para a maioria das famílias brasileiras. Notebook, então, era um item de luxo restrito a grandes médicos, advogados, ou empresários. A solução encontrada pelos aficionados daquela época era comprar um computador montado em uma loja local, ou adquirir peça por peça mês a mês, o que poderia gerar uma economia de 40% a 60% em relação ao custo dos PCs de marca. Desnecessário dizer que, na maioria das vezes, a pirataria rolava solta.

Avançamos para o ano de 2.003 e o governo federal lança o programa PC Conectado, com objetivo de popularizar a informática no Brasil através de computadores com uma configuração básica, rodando alguma distribuição de Linux e com isenção de impostos federais. Apesar de a escolha do sistema operacional ter causado polêmica e acabado em pirataria, este programa, em conjunto com o momento favorável que o Brasil e outros países emergentes viviam – o superciclo das commodities – ajudaram grande parte da população a adquirir seu primeiro computador e impulsionaram várias montadoras nacionais – das quais falaremos adiante -, tornando a informática em geral mais acessível.

Avancemos para a década de 2.010: os outrora elitistas Notebooks, com a própria evolução tecnológica e o lançamento de tecnologias mobile, tomam o lugar dos desktops – para cedê-los aos smartphones em seguida. Inverte-se a situação da década anterior e os PCs montados se transformam em caros artigos de nicho, voltados a gamers e a profissionais exigentes que fazem questão de escolher a dedo os componentes de suas máquinas.

No entanto, em toda essa festa tecnológica, poucas pessoas perceberam que nossa moeda, o Real, começou, lentamente, a se desvalorizar em relação ao dólar. Em dezembro de 2010, 1 dólar estadunidense valia R$ 1,69; em dezembro do ano seguinte, R$ 1,86; ao final de 2012, R$ 2,08 e, com raras interrupções, chegamos a maio de 2020, com o dólar batendo os R$ 6,00.

A escalada do dólar assusta e é bem parecida com a situação no início da década de 1970, conforme você pode ver aqui. Naquela época, a moeda estadunidense demorou cerca de um ano para passar dos NCr$ 4,35 para os Cr$ 5,03 e outro ano para passar aos Cr$ 6,02. Daí em diante, foi só ladeira abaixo, com o cruzeiro terminando sua vida na proporção de 1 dólar para Cr$ 12985,00, dando lugar ao Cruzado. Com o Real, tudo foi muito mais rápido, demorando 7 meses para o dólar ir de R$ 4,13 para R$ 5,19 e menos de dois para bater os R$ 6,00.

Obviamente, não podemos afirmar que a situação caótica do passado irá se repetir, mas o fato é que, hoje, quando o mundo começa a viver uma era dourada da tecnologia, com óculos 3D, inteligência artificial, robôs, exploração espacial privada e tudo que um filme de ficção científica tem direito, nós brasileiros só podemos sentar e ficar olhando. Como diz o famoso bordão de Fabiana Karla, “isso não te pertence mais”!

No início da década, vários entusiastas conseguiam importar processadores, placas de vídeo, pentes de memória e outros componentes de lojas dos EUA a um preço mais em conta do que aqui no Brasil: tínhamos um câmbio favorável. Hoje, porém, qualquer item à venda na Amazon dos EUA, no eBay, ou até mesmo no queridinho AliExpress se torna automaticamente muito caro devido à cotação do dólar e aos demais fatores econômicos causados pela pandemia e pelos cenários econômicos interno e externo.

Verdade seja dita, a partir de agora tanto os usuários domésticos entusiastas quanto os profissionais gestores de TI em empresas terão de se adaptar: saem marcas como Apple, Lenovo, Dell ou Acer e entram produtos nacionais, como Positivo, Multilaser ou DL que, apesar de ainda dependerem de componentes importados em sua fabricação, terão um preço mais acessíveis por serem daqui. Não há escolha e, com isso, chegamos no segundo ponto:

O Brasil ficou para trás

O “milagre econômico” que o Brasil viveu na década de 2000 se deu à alta das chamadas commodities, mercadorias de estado bruto ou pouco industrializadas. O Brasil, como um dos maiores exportadores de soja e de outros itens agropecuários, soube surfar nessa onda e se deu bem. Infelizmente, com a crise financeira de 2008, o superciclo das commodities acabou e, ao que tudo indica, o Brasil demorou a perceber isso. Tanto é que, ainda hoje, fazem-se campanhas enaltecendo nossa agricultura, dizendo que “agro é tech, agro é pop”, mas não dizem que, hoje, o agro não tem mais tanta relevância quanto há alguns anos.

Muito se fala em fazer reformas econômicas e em “reativar a economia”, mas isso só será plenamente possível se abandonarmos de vez a ideia de que, na organização internacional do trabalho, somos um país exportador de itens agrícolas, e começarmos a concentrar nossa força de trabalho na inovação, na tecnologia e na pesquisa científica, esta última tão maltratada atualmente por motivos ideológicos e religiosos.

Peguemos, por exemplo, a Coréia do Sul, país asiático com 99720 km2, pouco maior do que o estado de Santa Catarina, que tem 95350 km2. Mesmo pequeno – e com o dólar valendo cerca de 1200 won, a moeda local -, este país é a casa de gigantes como Samsung e LG, gigantes multinacionais presentes em quase todo o globo e uma das nações mais conectadas do mundo, além de estar dando exemplo referente à testagem da população em relação ao novo COVID-19.

Agora, voltemos ao Brasil. Cadastre-se em algum fórum ou comunidade de sua preferência, diga que está interessado em comprar um novo notebook e coloque o anúncio de um Positivo Stilo para sugestões. Quase certamente, 11 entre 10 comentaristas dirão que aquela marca é ruim e lhe dirão que “com tantos Reais a mais, você compra o modelo tal da marca tal”, obviamente importada. Não estou aqui, claro, discutindo a qualidade técnica desses produtos, mas é flagrante o contraste entre os dois países citados: enquanto aqui, as marcas nacionais são vistas como ruins e última opção, no país asiático são motivo de orgulho.

Por que não podemos ter uma Positivo da vida sendo motivo de orgulho para o Brasil, exportando para a América Latina, os EUA, a Europa e a Ásia? Porque isso passa por uma palavrinha chamada educação.

Eu, como professor em uma escola pública, vejo que muitos alunos ainda têm dificuldade em compreender conceitos básicos de matemática fundamental, mesmo em séries avançadas. Avance alguns anos e poucos deles entrarão em uma universidade ou conseguirão uma carreira de sucesso. Os que se saírem melhor em sua vida escolar, sem dúvida, escolherão sair do Brasil para ter uma qualidade de vida e um desenvolvimento profissional melhores a ficar aqui e auxiliar no desenvolvimento de nosso país. E por quê? Porque aqui, por incrível que pareça, ser inteligente ainda é motivo de ofensa. O que estamos vendo, agora, é a consolidação de um projeto de anos de desindustrialização, que vai muito além de futebol e BBB, e que resultou em igrejas lotadas e em universidades vazias.

O acesso à tecnologia é desigual em nosso país. De um lado, profissionais de educação veem a pandemia como uma excelente oportunidade para alavancar o e-learning, as aulas via internet e a educação à distância. De outro, temos um contingente de alunos que, devido à COVID-19, estão simplesmente incapacitados de estudar pelo fato de não terem computador em casa e, quando muito, terem apenas um celular com configurações básicas e um plano 3G com uma quantidade insuficiente de dados móveis.

Enquanto o Brasil for o país do agro, nossa situação só tenderá a piorar. Precisamos urgentemente abandonar essa mentalidade colonialista e abraçar a Ciência e a tecnologia, dando oportunidade aos jovens para levarem suas ideias adiante, fomentando a criação de startups e incentivando a inovação.

O Brasil é o país do futuro, mas o futuro é algo que nunca chega.

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4 Comentários

Avatartiago
1

Infelizmente tenho que discordar de algumas coisas. Sou da área de tecnologia e tbm sou produtor de soja e de gado de corte e enquanto o mundo de fato parou com o Vírus Chines o Agro Brasileiro continuou e continua trabalhando e sustentando não só o Brasil mas boa parte de do Mundo, alias a agricultura no mundo não parou.

AvatarAndré Machado Autor do Post
2

Caro Thiago,

em primeiro lugar, chamar o novo coronavírus de “vírus chinês” é uma atitude preconceituosa e xenofóbica. A OMS já declarou que “num mundo interconectado, vírus e doenças se movem pelo mundo”. Além do mais, em 2009 houve outra pandemia na América do Norte e não a chamamos de “gripe americana” ou algo assim. Se você quiser dar nome aos bois, chame o vírus pelo seu nome: SARS-COV2.

https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/03/19/oms-critica-autoridades-que-culpam-china-pela-proliferacao-do-virus.htm?cmpid=copiaecola

Pouco importa se o “agro” brasileiro parou ou continuou andando; seu comentário demonstra justamente que só o agro, apesar de importante, não é mais suficiente para sustentar, sozinho, esse país. Precisamos diversificar nossa matriz econômica, investindo em startups, em inovação e em tecnologia.

[]s

Avatartiago
3

Caro André
Estou dando nome sim aos bois, o vírus surgiu na china logo chamo de vírus chines e ponto final, homofobia é coisa de sua cabeça e de palermas e pessoas do politicamente correto e pouco me importa o que acha a OMS que nada mais é do que um braço do comunismo chines, não venha que mimimi.

AvatarFernando
4

Amigo o agro precisa de tecnologia, tecnologia precisa do agro e vice e versa, do agro vem a sua comida e a do mundo inteiro, ou será que está pensando capacitar os jovens para criarem comida digital??? Estava muito bom o artigo até desmerecer o AGRO. (Infeliz comentário!)

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