As incríveis possibilidades da impressão 3D

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Essa cena se passa há daqui alguns anos no futuro. Você leva seu carro para seu mecânico de confiança e fala sobre algum ruído que o tem incomodado. Com toda sutileza, o profissional observa seu automóvel e diz, limpando os dedos em uma daquelas flanelas características: “Dá pra arrumar patrão, mas vou ter que fazer o download e imprimir outra engrenagem dessas. Vai demorar umas duas horas.”. Imagine agora a seguinte situação: Você recebe uma ligação de seu médico dizendo que os resultados de seus exames chegaram, e que realmente há dano irreversível em um de seus órgãos.”Não se preocupe”, diz ele tranquilo do outro lado da linha, “seu novo fígado já está sendo impresso e estará pronto para o transplante em no máximo uma semana!”.

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Você já ouviu falar em impressão 3D?

O termo não é estranho para aqueles que são mais ligados às novas tendências de tecnologia, mas não nos custa nada uma introdução rápida: A Impressão 3D, ou prototipagem rápida, consiste em uma técnica de depositar material através de camadas com uso de um equipamento específico. Desmistificar o funcionamento de tais equipamentos é tarefa simples, bastando comparar o seu funcionamento com as impressoras comuns, destas que nós temos em nossas escrivaninhas. Essas impressoras depositam uma finíssima camada de tinta em uma folha de papel, gerando caracteres e desenhos. Agora, o que aconteceria se depositássemos sucessivamente diferentes camadas de material solido liquefeito sobre uma superfície? Se você tem uma mente criativa e boa capacidade de visão espacial, já conseguiu vislumbrar o funcionamento das impressoras 3D.

Seu funcionamento se resume a uma estrutura que move um bico injetor de material plástico, um filete de ABS, através dos três eixos: X, Y e Z, ou seja, ela cria objetos que possuem largura, altura e profundidade. Impressionado? Pois saiba que não para por aí. No Brasil, já existem impressoras 3D à venda, e na internet já encontramos diversos sites que distribuem gratuitamente modelos em 3D e outros que comercializam modelos prontos e aceitam encomendas de protótipos. Na Internet (ah, a internet) já é possível comprar kits para que os curiosos montem em casa suas próprias impressoras de três dimensões. Um kit como esse sai entre três e quatro mil reais, já com todos os motores e partes móveis, além de um bom pedaço de filete de ABS para suas primeiras experiências e um software com alguns arquivos de testes. Uma versão mais bem-acabada está sendo comercializada através de alguns sites de comércio eletrônico e custa a partir de seis mil reais.

E se fosse possível imprimirmos mais do que apenas bibelôs de plástico de cor única? Cientistas já provaram que pequenas gotículas de metal líquido podem ser empilhadas e agrupadas criando pequenas estruturas, enquanto a NASA planeja o desenvolvimento de impressoras capazes de produzir alimentos para os astronautas, misturando carboidratos, proteínas e fibras na quantidade certa e com sabor discutível.

Cientistas da universidade Huazhong de Ciências e Tecnologia (sim, da China) provaram recentemente que o futuro da impressão 3D é ainda mais ambicioso: Através do cultivo de células humanas e utilizando uma espécie de gel feito com nutrientes, eles imprimiram um rim humano. Na verdade, foram diversos ‘micros-rins’, cultivados de maneira pouco convencional através de um equipamento que, de maneira muito semelhante às impressoras 3D ordinárias, aglutinam esse material gelatinoso com o formato através do qual devem crescer as estruturas orgânicas do novo órgão.

Apesar da vanguarda da Universidade chinesa em produzir uma cópia idêntica de um órgão humano através de uma impressora tridimensional, a ideia de imprimir estruturas biológicas não é novidade. Há pouco tempo, uma empresa conseguiu criar um pedaço de tecido do fígado com uma técnica semelhante de cultivo, tornando possível que sejam feitas análises mais precisas do uso de medicações e ação de doenças. A universidade de Cornell já havia apresentado um projeto de orelhas humanas impressas com tecido vivo. No campo da saúde, o avanço alcançado até agora deixa claro que as possibilidades são muitas. Será possível em breve cultivarmos órgãos e ossos com a mesma facilidade e praticidade que são produzidas as pesadas e desconfortáveis próteses. As impressoras 3D trazem para o campo da medicina a opção de recriarmos órgãos de acordo com as necessidades do paciente, eliminando a necessidade de um doador compatível e amplificando a gama de profissionais envolvidos no processo. Em um hospital, faz-se a coleta das células para seu mapeamento. Em outro, cultiva-se o órgão através dos equipamentos de bioimpressão 3D.

Porém, mal saiu da incubadora, e a impressora 3D já enfrenta problemas. O motivo é simples: Como coibir a cópia de produtos e sua impressão não autorizada em impressoras 3D mundo afora?

Com fotos de diferentes ângulos, qualquer objeto pode ser prototipado em pouco tempo. A própria Autodesk, empresa responsável pelo software de criação de modelos 3D AutoCAD, já disponibiliza em sua página uma versão acadêmica de um software que transforma imagens em modelos digitais de três dimensões. Recentemente, um modelo de arma produzido por um americano causou furor, provando que com pouca prática qualquer um poderia produzir em casa uma arma. Além das peças impressas em plástico, apenas um pequeno prego é necessário para montagem da arma de fogo. E munição, é claro.

Esse tipo de discussão está longe de ter um fim. Quando inventou a imprensa, Gutenberg passou de admirado inventor para perigoso inimigo da igreja. Afinal, antes de seu tipo móvel fabricar bíblias e outros livros em larga escala, o conhecimento estava restrito aos porões da igreja católica medieval, e sua interpretação subordinada à vontade de clérigos e reis da época. Gutenberg deu a cada um a possibilidade de construir seu próprio conhecimento. As impressoras 3D são, sem dúvida, a invenção mais importante deste século, pois irão tirar a tecnologia de manufatura das mãos de grandes empresas, permitindo que pequenas cooperativas e grupos de pessoas desenvolva e crie máquinas e equipamentos.

A impressão 3D, em conjunto com a internet, vai revolucionar a maneira como vivemos e trabalhamos. Se essa frase parece clichê, basta pensar em como esses equipamentos serão comuns nos próximos anos. Nos próximos dez ou quinze anos estaremos ouvindo comerciais que dirão: “Não precisa sair de casa! Compre o modelo em nosso site e imprima você mesmo!”… Ou, se preferir, pode baixar um modelo pirata na Internet. Só não reclame se não funcionar direito. Uma coisa é imprimir em casa um brinquedo ou um objeto de decoração, mas quando se trata de um novo rim, é melhor fazer as coisas direito.

Será esse o fim dos direitos de patente industrial? Embora tenha sido criticado em sua época, Gutenberg provou que a imprensa na verdade só democratizava o conhecimento. Grandes invenções, como a imprensa e a internet, tem essa prerrogativa: Elas não são moldadas pelo mundo, e sim, o mundo se molda ao redor delas. Foi assim na idade moderna, foi assim na aurora da informação e será assim com as impressoras 3D.

Seja bem-vindo ao mundo do “faça-você-mesmo” 2.0.

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2 Comentários

Anderson Araújo
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É invenção revolucionária. Pra quem assistiu, nos faz pensar na cena do filme “O 5° Elemento” (The Fifth Element) – 1997, em que a personagem de Milla Jovovich tem seu corpo inteiro recriado a partir do que restou do seu corpo:
http://www.youtube.com/watch?v=WmNy5_FplUI
Será que chegaremos a tal avanço?

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