“Faz o seu que eu faço o meu e que vença o pior”

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Vencer a qualquer custo

Recentemente li comentários feitos por um psicólogo que disse que a tática usada pelos participantes do Survivor não teria sucesso num ambiente de trabalho. O psicólogo disse que a colaboração e a confiança são ingredientes chave para alcançar sucesso no trabalho.

Survivor (O Sobrevivente) é um show de televisão que se popularizou (no Brasil foi criado o “No limite”), porque expõe a natureza humana – tanto o lado bom como o mau, mas principalmente o mau, porque este geralmente é mais interessante. A formação e dissolução de alianças, as estratégias para ganhar ou opor-se aos outros, a mentira, a fraude e a deslealdade capturam a atenção dos espectadores. Tudo isso é feito em nome do jogo, pela sobrevivência por mais um dia, e para ganhar o grande prêmio.

Eu concordo que a colaboração e a confiança são importantes contribuições para o sucesso no trabalho, mas as culturas organizacionais frequentemente encorajam a deslealdade e outros comportamentos do Survivor entre seus empregados. Podemos reconhecer facilmente os fatores que promovem esses comportamentos: objetivos incongruentes, mudança de coalizões, busca de desculpas, procura de culpados e uma história de tolerância para com as violações da confiança.

“Quanta culpa um homem é capaz de carregar numa única vida?”

Eu acredito que o melhor e o pior do mundo corporativo são dos “filhos da puta” – desculpem pelo xingamento, mas pudor nessa definição só tiraria a compreensão do restante deste texto.

Tem duas coisas sobre filhos da puta

1. Ninguém vira um filho da puta do dia para a noite. A pessoa já era, tinha talento, gostava disso. Talvez só estivesse faltando a oportunidade de sair do casulo.

A filhadaputice é, na melhor das hipóteses, uma característica latente, que assume forma ativa sempre que as condições do ambiente permitem.

Então, se você se surpreendeu com a insurgência de um filho da puta bem do seu lado, é porque não estava prestando bem a atenção.

Ou porque foi ingênuo em sua avaliação.

2. Todo mundo sabe quem são os filhos da puta. Se eles continuam ali, é porque alguém quis e deixou. E porque eles desempenham uma função.

Sabe aquela história de que jabutis não sobem em árvores? Pois é. Os filhos da puta também não estão ali por acaso, porque ninguém percebeu, porque ninguém viu, porque ninguém sabia.

A existência de um filho da puta no ambiente corporativo pressupõe sempre a existência de outro no andar de cima. E assim por diante. Su-ces-si-va-men-te.

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Entre nós há Brigas. Assédio moral. Humilhações. Geladeiras. Chantagens emocionais. Armadilhas. Conchavos. Traição. Cascas de banana. Mentiras. Meias verdades. Pistas furadas. Falsas promessas. Sinais dúbios. Ordens ambíguas. Armação. Empulhação. Enrolação. Enganação.

Nada de novo. Exceto pelo fato de que tudo isso é cada vez mais normal (Ou então, vai ver, nem mesmo isso é novo).

Vivemos a era das relações sustentáveis. Do politicamente correto. Do socialmente justo. Do economicamente viável. Das responsabilidades todas. Da redescoberta da cidadania. Do trabalho em rede. Da colaboração.

No entanto, dentro das corporações, as coisas parecem continuar ferrenhamente competitivas. Regidas pela regra silenciosa do “faz o seu que eu faço o meu e que vença o pior” (Ou o mais filho da puta)

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Existem três tipos de deslealdade: (1) não intencional, (2) premeditada, e (3) oportunista.

A deslealdade não intencional viola a confiança sem a intenção de fazer isso. Por exemplo, um trabalhador pode revelar, inadvertidamente, informações confidenciais sem a intenção de fazê-lo. Esse é o clássico deslize da língua.

A deslealdade premeditada consiste em entrar numa relação de confiança para trair a outra pessoa. Os espiões são exemplos de deslealdade premeditada. Isso acontece, muitas vezes, durante as fusões de empresas. Por exemplo, os diretores da empresa adquirente garantem aos executivos da companhia adquirida que eles terão emprego na nova organização. Eles sabem que, assim que obtiverem informações importantes dos empregados, ou que os empregados completarem projetos críticos de curto prazo, a companhia vai demiti-los.

Os traidores oportunistas pretendem trair a outra parte mas não entram na relação com essa finalidade. As circunstâncias adequadas e a crença de que eles vão ganhar mais através da traição do que agindo com integridade fazem com que o oportunista ceda à tentação. O traidor oportunista avalia os benefícios potenciais da deslealdade, a probabilidade de ser pego e a severidade das penalidades que sofrerá caso seja descoberto.

A maioria das traições são oportunistas. Colegas de trabalho não têm a intenção de trair uns aos outros. Eles simplesmente o fazem quando surge a oportunidade. As fofocas, as punhaladas pelas costas, o crédito não merecido por trabalhos executados por outros colegas, são exemplos de deslealdade no local de trabalho.

Um exemplo clássico de traição foi a dos irmãos McDonald.

Dois irmãos, uma barraca de fast food e um sonho. Richard e Maurice McDonald revolucionaram a pequena cidade de Arcadia (Califórnia) quando abriram uma lanchonete que vendia hambúrgueres por 10 centavos cada, servidos de minuto a minuto, embrulhados em papel e sem necessidade de garçons: o cliente fazia o pedido diretamente ao cozinheiro. Três anos depois, em 1940, os irmãos McDonald transformaram a barraca de comida rápida em um restaurante com cimento, ladeado por um M amarelo de 7,5 metros de altura que não podia ser visto do espaço, mas com certeza a partir de qualquer ponto da cidade.

Atualmente existem cerca de 40.000 unidades do McDonald’s que alimentam 68 milhões de pessoas todos os dias em 118 países.

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Em 1999, a revista Time homenageou as 100 pessoas mais importantes do século. Albert Einstein, Mahatma Ghandi, Bart Simpson e, claro, o fundador do McDonald’s: Ray Kroc. Um momento, quem é Ray Kroc? Não estávamos falando sobre os irmãos McDonald?

Ray Kroc é um self-made man (alguém que conseguiu o sucesso sozinho), mas com “pedaços” de outros. O sonho americano embrulhado para levar e servido em tempo recorde. Kroc vendia máquinas de milk-shake (sem muito sucesso), quando os irmãos McDonald fizeram uma encomenda de seis liquidificadores. Kroc sentiu que havia ganhado na loteria, mas não tinha ideia do valor. Logo viu o potencial do inovador sistema de comida vertiginosa do restaurante McDonald’s: o custo era minúsculo, e os clientes, infinitos.

Por isso, se ofereceu para trabalhar como representante comercial da marca. Em 1955, começou a vender licenças. Em 1961, Kroc ambicionava a expansão nacional. Os irmãos McDonald não tinham essa ambição (o sonho deles era chegar a um milhão de dólares antes dos 50 anos), de modo que lhe venderam a empresa por 2,7 milhões de dólares e 0,5% de participação nos lucros. Kroc pechinchou até o último dólar.

O acordo entre Kroc e os McDonald foi selado com um aperto de mãos. Nada de contratos. A desculpa foi que nenhum dos três estava interessado em declarar os 0,5% de participação nos lucros à Receita. Assim, Richard e Maurice McDonald, que um dia tiveram a melhor ideia da história do setor de restaurantes, agora são lembrados pela pior ideia da história do mundo dos negócios. Nunca receberam aquela porcentagem por acreditarem na lealdade de Kroc.

Maurice McDonald morreu de um ataque cardíaco em 1971, vencido pelo estresse e pela raiva de ter sido enganado e roubado em primeiro lugar, e eliminado da história depois. Richard encarou tudo mais tranquilamente e viveu até os 89 anos.

Os olhares estão todos voltados para a linha de chegada. E não para o percurso. Então é tudo do jogo. Vale dedo no olho, rasteira, empurrão, cotovelada.

De novo: a rigor, nada de novo.

Mas quando eu paro para pensar, me impressiono. Ser justo, solidário, franco, honesto vale pouco.

Estamos, no fundo, construindo valores (e destruindo valores) em nossa trajetória, com os passos que escolhemos dar em nossa caminhada.

Então o que decidimos fazer não apenas nos define individualmente e influencia o ambiente em que atuamos – mas define e influencia o nosso tempo, a era que nos coube viver.

Não digo que não haja gente nos escritórios disposta a fazer o seu trabalho bem feito e ir embora de consciência tranquila, a viver e a deixar viver. Longe disso.

Não digo também que não haja no ambiente corporativo gente boa, gente do bem, gente legal e bacana.

Digo apenas que há mais filhos da puta do que o que seria razoável e que esse é quase um modo de vida, quase um jeito de levar a carreira. E que isso dá mais certo do que errado por aí, a julgar pelo evolução funcional dos seus praticantes.

(A gestão pelo medo e pela punição contribuem muito para que a filhadaputice viceje, num clima cotidiano de “tire o seu da reta” e “salve-se quem puder”.)

A todas essas, me pergunto se estamos caminhando para o lado certo. Se o modo como lidamos com os outros em nosso dia a dia faz algum sentido. Se há solução possível. E se um dia vamos refletir um minuto sobre o que estamos fazendo e para onde estamos indo.

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Wesley Costa

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Tenho mais de duas décadas de experiência em TI e terceirização de processos de negócios, projeto / construção / implementação de serviços compartilhados, gerenciamento de outsourcing, renegociações de contratos e planejamento e análise financeira. Também ofereci serviços práticos como um executivo de vendas, onde forneci suporte e liderança em vários negócios grandes e complexos para processos de TI e de negócios.

Carreira desenvolvida na área de Tecnologia da Informação e administração, com ampla experiência em gestão de pessoas, análise de impacto e riscos a nível nacional e internacional, gerenciamento de segurança de ambiente computacional, elaboração de cronogramas, padronização de processos e gerenciamento de projetos.


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