Sobre “devs de YouTube” e os perigos do StackOverflow

Recentemente, uma polêmica tomou conta das redes sociais: Alguém comentou, no Twitter, que um dos desenvolvedores de sua equipe, que não havia feito faculdade, atrasava a entrega final dos projetos. O post se tornou tão polêmico, com a autora sento rotulada como “tóxica”, que a mesma acabou apagando-o.

Foi o suficiente para reacender a polêmica entre “devs de YouTube” e “devs de faculdade” e da necessidade de se ter uma certificação para comprovar seus conhecimentos.

Como professor, tenho a consciência de que devemos valorizar tanto os espaços de ensino-aprendizagem formais – como escolas, cursos técnicos e faculdades – quanto os não formais – sendo o Youtube, talvez, um dos, ou o maior deles atualmente.  No entanto, isso não significa dizer que o conhecimento alcançado em ambos seja equivalente ou que um dispense o outro.

Em resumo, grande parte dos assim chamados “devs de YouTube” – termo que muitos consideram pejorativo -, consideram o cursar de uma faculdade algo desnecessário, assim como a necessidade de possuir um diploma ou outra certificação para comprovar seus conhecimentos. Muito não veem utilidade prática em matérias como algoritmos, estruturas de dados, sistemas operacionais, ou até mesmo em assuntos correlatos, como Cálculo, Álgebra Linear, Geometria Analítica, entre outros.

Tal pensamento pode ser um sinal da transição paradigmática da ciência moderna, conforme previsto na obra de Boaventura de Souza Santos, ou da modernidade líquida, descrita por Bauman. Não podemos descartar, também, a crescente precarização do ensino no Brasil, em especial o superior.

A faculdade é necessária?

É claro que ninguém necessita cursar uma faculdade para saber como conectar uma página PHP a um banco de dados MySQL ou como consumir um JSON ou um XML em sua aplicação. No entanto, a faculdade irá fornecer bases teóricas para a prática, o que a tornará melhor.

Imagine que surja um problema em produção. O desenvolvedor graduado irá utilizar seus conhecimentos científicos e auxiliares para fornecer uma solução correta e eficiente. Já o desenvolvedor que possui apenas uma formação técnica ou no YouTube tentará resolver o problema com base em tutoriais, copiando códigos de fóruns ou de sites como Stack Overflow, na base da tentativa e erro. Não raro, ele atingirá uma “solução” através da famosa gambiarra.

Esse era o ponto que a autora original do post quis levantar mas que, aparentemente, poucos compreenderam. Um desenvolvedor não formado tentará resolver tudo “na prática” e, sem um sólido conhecimento acadêmico, poderá atrasar todo o processo em suas tentativas de fazê-lo.

O YouTube é suficiente?

Hoje, muitos desenvolvedores não veem a necessidade de ter uma certificação formal. No entanto, esse é um erro fatal. Basta dizer que, dentro do YouTube, qualquer um pode ser especialista naquilo que quiser. Fora dele, no entanto, são necessários meios formais para se atestar o conhecimento.

Aquele especialista com um canal com milhares de inscritos e milhões de visualizações possui algum livro publicado? Tem alguma empresa ou CNPJ? Dá aula em alguma faculdade ou instituição? Ou será que ele só existe dentro da plataforma, sendo um completo desconhecido fora desta?

O que move o YouTube é o mesmo combustível que alimenta a ultrapassada televisão: audiência. A Google ganha dinheiro através de uma porcentagem dos anúncios veiculados. Quanto mais visualizações tiver um vídeo, mais os anúncios serão vistos. Portanto, mais dinheiro entra para os cofres da empresa e, também, do criador.

Por isso, é claro que a maioria dos canais de desenvolvimento vai focar naquilo que é mais simples: A linguagem do momento, a IDE da hora, o banco de dados mais badalado, etc… Não lhes interessa fazer um vídeo sobre estrutura de dados, ponteiros, complexidade algorítmica, pois isso não atrairá views.

Como resultado, o conhecimento disponível no YouTube, focado apenas na prática, será apenas superficial, com os desenvolvedores sabendo apenas como resolver problemas simples, carecendo de um aprofundamento. Este, ficará a cargo do espectador, que quase nunca o procurará, por não ver utilidade imediata no mesmo.

O problema do StackOverflow

O StackOverflow se tornou, hoje, uma das maiores fontes de códigos do mundo. No entanto, a simples cópia do conteúdo do mesmo pode trazer vários problemas tanto para o desenvolvedor, quanto para a empresa:

  • O dev de YouTube não vai se importar em entender como o código funciona: a ele, apenas interessa que o código funciona. Ele pode, no entanto, não ter a melhor abordagem para o problema.
  • O código pode, com ou sem intenção, abrir uma brecha de segurança no programa que o utilizar.
  • O desenvolvedor não sabe, com certeza, de onde veio aquele código. No futuro, sua utilização pode trazer problemas jurídicos.

Tudo é uma questão de foco

Já é sabido que o sonho de viver de AdSense há muitos anos deixou de ser realidade. Hoje, grande parte dos canais de desenvolvedores vive com base em outros patrocinadores e com a venda de cursos. E grande parte dos tutoriais de programação disponíveis no YouTube nada mais são do que chamarizes para que o espectador compre um curso “premium” sobre aquele assunto.

A ironia é que, hoje, com a democratização do ensino e a oferta de cursos EAD, muitas faculdades particulares oferecem cursos de graduação com mensalidades cujo preço é quase o mesmo do que o “curso top” daquele famoso YouTuber. Essa mudança de foco poderia alavancar ainda mais a carreira do desenvolvedor e fornecer-lhe o conhecimento necessário que lhe é, agora, ausente.

Portanto, cabe aos “devs de YouTube” se conscientizarem e buscarem sua profissionalização, ingressando em um curso acadêmico, ainda que à distância, para serem banhados pela Luz do Conhecimento e desenvolverem soluções da forma mais eficiente e correta possível.


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